ENSAIO nº 2 - "GÊNERO ROMANCE – O CAMALEÃO LITERÁRIO"
Romance, o gênero literário que é símbolo
de originalidade, individualidade e realidade, produto da Era Moderna da
História, responsável por popularizar o livro que se tornou sua mídia de
referência e que propagou os valores da sociedade burguesa em desenvolvimento
no velho e no novo mundo, destacando-se por ser um gênero em constante evolução
e mutação, altamente adaptável a qualquer realidade e que pode englobar
características de seus antecessores, quando necessário. Por meio desse gênero,
assistimos o florescimento do capitalismo editorial ao transformar o livro em
um dos produtos mais vendáveis e acessíveis para que, dessa forma, cada pessoa
pudesse ter acesso a esta mídia responsável por levar cultura e entretenimento
à classe burguesa e a quem lhe acercava. O romance não somente pôs um fim aos
gêneros que lhe precederam, como o gênero épico, a tragédia e a lírica, por
exemplo, ele conseguiu encontrar uma maneira de englobar algumas de suas características
quando necessário somadas às características do que chamamos de “Realismo”. Não
me refiro à escola literária, mas sim à particularidade realista, ou seja, a
valorização das experiências individuais que darão um tom único ao texto tendo
as suas experiências pessoais narradas e agregadas a uma completa descrição do
ambiente que os cercam. Essas são apenas algumas de suas principais
características que veremos ao longo deste texto.
Nas palavras de Walter Benjamin (1985): “O
romance, cujos primórdios remontam à Antiguidade, precisou de centenas de anos
para encontrar, na burguesia ascendente, os elementos favoráveis a seu
florescimento. Quando esses elementos surgiram, a narrativa começou pouco a
pouco a tornar-se arcaica; sem dúvida, ela se apropriou, de múltiplas formas,
do novo conteúdo, mas não foi determinada verdadeiramente por ele”, notamos que
as transformações que o romance sofreu ao longo dos tempos encontrou seu meio
ideal no seio da burguesia ascendente para se tornar seu principal meio de
entretenimento e cultura, levando a narrativa tradicional a sofrer uma
metamorfose, forçando-a a se adaptar aos tempos modernos onde o coletivo
tornou-se individual e o tempo, um artigo de luxo. Os antigos locais de
trabalho que eram propícios ao desenvolvimento da figura do narrador
tradicional - aquele que contava histórias durante as longas jornadas de
fiação e tecelagem, envolvendo todos os presentes e transmitindo a tradição
oral às gerações vindouras – cederam seu lugar à lúgubre e insalubre realidade
das indústrias, movidas incialmente à máquina à vapor criada por James Watt, e
operadas por trabalhadores explorados que realizavam extenuantes jornadas e não
mais tinham o ambiente favorável para que se narrasse histórias, cada
trabalhador se ocupava somente de suas funções e tinham inalcançáveis metas
diárias a cumprir, portanto só se encontravam nos momentos de intervalo e de
deslocamento no trajeto casa-trabalho e vice-versa. Outra importante mudança
social dos tempos modernos é a inserção da mulher no ambiente de trabalho e ela
será uma grande consumidora dos romances produzidos nesta fase inicial que
veremos a seguir, e aqui uma curiosidade, as criadas das casas burguesas passaram
a exigir um tempo reservado à leitura dos romances como fator de contratação, o
ocasional tornou-se essencial.
Também de acordo com Benjamin (1985),
“Cada manhã recebemos notícias de todo o mundo. E, no entanto, somos pobres em
histórias surpreendentes. A razão é que os fatos já nos chegam acompanhados de
explicações. Em outras palavras: quase nada do que acontece está à serviço da
narrativa, e quase tudo está a serviço da informação. Metade da arte narrativa
está em evitar explicações”, então podemos fazer uma análise destas palavras
com nossa realidade contemporânea, pois estamos cada vez mais imersos em um
mundo de informações que devem, a priori, ser curtas. É mais valorizado a
quantidade de informações de curta extensão podemos publicar em uma rede social
durante o período de um dia, não interessam as longas mensagens. A evolução da
publicação da notícia dos meios impressos para o meio digital, com o advento da
internet, está tornando o ser humano cada vez mais individualista, porém pobre,
ou melhor, paupérrimo na arte de narrar e entreter um número maior de pessoas
porque elas já não têm tempo e interesse em longas narrativas, mesmo que estas
tragam conselhos e instruções de vida. Hoje o importante é estar sempre
presente publicando informações desnecessárias e vazias, até mesmo falsas
quando a intenção é alienar o público. Essa primazia da publicação contínua e
cada vez mais expressa, em tempo real, da informação continua a empobrecer a arte
de narrar e unir pessoas em volta de histórias enriquecedoras, consequentemente
empobrecem o conteúdo das histórias a serem contadas nos romances. Ainda nas
palavras de Walter Benjamin: “O extraordinário e o miraculoso são narrados com
a maior exatidão, mas o contexto psicológico da ação não é imposto ao leitor.
Ele é livre para interpretar a história como quiser, e com isso o episódio
narrado atinge uma amplitude que não existe na informação”, dessa forma nossos
contemporâneos e as próximas gerações se tornarão cada vez mais vazias em
termos de narrativa tradicional devido à informação processada, “pasteurizada”
e interpretada da maneira que os editores querem que o público entenda, acredito
que as histórias cessarão de ser passadas de geração a geração em um dado
momento, o que é um cenário desolador, pois se perderá o censo crítico da
interpretação e mesmo da articulação de ideias.
Esse novo cenário criado com a transição
do mundo feudal para o mundo industrial acabou gerando uma demanda por
escolarização no final do século XVIII, na Inglaterra, principalmente entre a
burguesia, pois para a camada mais pobre, o ensino era muito custoso ainda e
muitos dependiam de escolas de caridade que primavam pelo ensino religioso e
pela disciplina social, na Inglaterra, de acordo com Ian Watt (2010), e essas
escolas consideravelmente contribuíram muito com o aumento do público leitor já
que não havia investimento da coroa na instrução da população e na criação de
escolas públicas para atender a crescente classe operária. Nas grandes cidades,
as crianças compunham, junto com as mulheres, a camada de mão-de-obra barata mais
numérica e mais explorada pelos industriais, portanto o ensino era um fator
impeditivo ao trabalho para essa camada social devido à falta de tempo, de
dinheiro, saúde e de condições familiares para que ocorresse um estímulo à
alfabetização, era comer ou estudar, embora pudéssemos ver um cenário diferente
entre a camada agrícola e principalmente entre os comerciantes que investiam na
instrução de seus filhos para que os negócios prosperassem. Devido a camada
social de comerciantes e artesãos em ascensão e bem sucedidos, funcionários
administrativos, profissionais independentes, esse público burguês que
estava em expansão após as revoluções industrial e francesa, somado aos membros
do clero, impulsionaram a demanda e consequentemente na produção de livros,
embora o custo de produção e aquisição deste novo produto de entretenimento
ainda fosse alto.
Esse novo público leitor, sedento por
leitura, encontrou um grande problema: o alto custo dos livros que eram
vendidos em luxuosas edições com detalhes em ouro, capa de couro e outros
adereços que encareciam e distanciavam este novo objeto de desejo de seu
público-alvo. A partir dessa demanda começou o surgimento do “pirateamento” de
algumas edições em busca de um preço mais acessível à camada trabalhadora. É
importante frisar que no século XVIII, o romance ainda não era um gênero de
destaque entre os leitores, ainda estava em aperfeiçoamento para se tornar o
que lemos hoje. Entre os gêneros literários que eram mais vendidos ao grande
público ainda estavam as baladas, as novelas cavaleirescas, relatos de crimes,
relatos de acontecimentos extraordinários e panfletos, sendo que os romances
eram publicados em alguns jornais e panfletos, como Robinson Crusoé, de Daniel
Defoe, que foi reimpresso em um jornal três vezes por semana. Ian Watt (2010)
não aborda estes romancistas que buscavam a publicação de seus trabalhos por
essas mídias e sim os que iniciaram a linha editorial dos romances. Vemos aqui
os primeiros passos do capitalismo editorial.
A popularização do livro, e
consequentemente do romance, começa com o aumento da criação de bibliotecas
fixas e móveis que vão leva-lo à pessoas que geralmente não teriam contato com
este incrível meio de entretenimento e aquisição de cultura. Aos poucos, o
livro foi tornando-se mais acessível do que o teatro, que já era um meio barato
e consolidado de entretenimento, passando por mudanças de tamanho e qualidade
de impressão, sofrendo uma considerável redução em seu preço final de venda ao
ser reduzido ao tamanho de bolso, tão popular entre o público francês até os
dias de hoje, conhecidas como les livres de poche (sendo este também um
grupo editorial muito popular), muitas vezes mais baratos do que uma garrafa
d’água que é vendida ao preço médio de 2 euros e cinquenta a três, enquanto os
grandes clássicos franceses de variados gêneros, como os poemas de Charles
Baudelaire, o teatro de Molière, alguns dos romances de Alexandre Dumas e
Balzac, histórias curtas, são encontrados ao preço de 2 euros. Não só na
França, mas também na Inglaterra, nos Estados Unidos e na Alemanha, países com
um grande público leitor, o livro de bolso tornou-se muito popular pelo seu
baixo preço e por apresentar uma linha de impressão bem simples, embora possua
um bom acabamento e dê ao romance o invólucro que ele merece, tornando simples
e prática a vida do leitor urbano muito envolvido em sua rotina diária de
trabalho que, dentro do individualismo coletivo dos transportes urbanos, tenta
ao máximo tirar proveito do seu tempo. Podemos ver no cenário dos transportes
coletivos o que Walter Benjamin (1985) destaca no capítulo de “O Narrador”, a
arte de narrar novamente entra em alerta de extinção, tornando-se cada vez mais
pobre entre nossos contemporâneos, pois as pessoas se comunicam cada vez menos devido
ao individualismo exacerbado proporcionado principalmente pelos smartphones,
livros de papel e digitais. As pessoas se encerram cada vez mais em seu mundo
particular deixando de interagir com outros e assim cambiar experiências,
conselhos, histórias, entre outras enriquecedoras histórias que geralmente eram
compartilhadas em outros tempos.
Conforme a análise de Ian Watt (2010), o
surgimento de ensaios periódicos publicados em periódicos mensais como no
Tatler (em 1709), depois sucedido pelo Spectator (em 1711 e 12), e mais tarde
no Gentleman’s Magazine (em 1731), introduz a influente figura do livreiro que
começa a publicar estes ensaios que contribuíram para a formação de um gosto
também satisfeito pelo romance. Este último, representado pelo jornalista e
livreiro Edward Cave, difere-se dos dois anteriores (que eram voltados para o
gosto da classe média e era elaborado pelos melhores escritores da época) por
trazer uma variedade maior do que informação substancial (como culinária,
charadas e assuntos gerais), pois além de coletâneas de ensaios e poemas,
trazia dicas para o trabalho doméstico e ensinamentos em forma de distração -
incorporadas ao gênero romance posteriormente. Isso foi fazendo com o que o
público aceitasse uma forma literária fora dos padrões formais estabelecidos,
um tipo de literatura popular capaz de difundir o gênero romance. Os livreiros
se tornaram influentes entre os autores e leitores, transformaram a literatura
em um produto como outro qualquer, eles foram os maiores difusores deste gênero
literário que ainda estava em processo de aperfeiçoamento e até hoje vemos
revistas literárias nas bancas, as mais antigas e importadas como a New York
Review of Books e a London Review of Books. No Brasil temos as revistas Quatro
Cinco Um e Cult, produzidas nos mesmos moldes. São revistas importantes para
difundirem o que anda sendo produzido no mundo literário, mas não sobre livros
populares, são produzidas para um público bem restrito, mais intelectualizado.
O romance hoje é um produto literário ainda muito vendável, basta vermos a
quantidade de livros vendidas em bancas de jornal e com a entrada de vários
autores em domínio público, há livros para todos os tipos de bolsos e gostos.
Os romances primam por algumas características
peculiares, como: o individualismo, o contato máximo com o tempo
presente (contemporaneidade), é acanônico, plurilinguista, ter a figura do burguês
como personagem das obras além de público alvo, é um gênero em evolução, mas a
sua característica mais preponderante em relação aos outros gêneros será o
termo usado pela primeira vez em 1835 para designar a “vérité humaine”
do pintor Rembrandt em oposição à “idéalité poétique” dos pintores
neoclássicos, para mais tarde fundarem o jornal chamado Réalisme e este
termo se tornar de exclusivo uso literário, então o termo realismo servirá para
designar oposição aos idealistas, de acordo com Ian Watt (1990), tendo o seu
auge com os escritores ingleses do século XVIII. O gênero épico, por
exemplo, ficou marcado por ser um poema sobre o passado heroico e nacional, o
passado absoluto, imutável, que contém as grandes lendas dos heróis como Ulisses,
como as batalhas narradas por Homero em a Ilíada e a Odisseia, a Guerra de
Tróia, as de Aquiles, Hércules, Jasão e os Argonautas, enfim tudo o que louva
os valores épicos, trata-se de “um gênero acabado, já enrijecido, quase
esclerosado. Sua perfeição, moderação e a total falta de ingenuidade artística
falam sobre sua velhice enquanto gênero, sobre o seu longo passado”, de acordo
com Bakhtin (1998), um gênero que prima pela memória e a tradição do passado,
contrapondo-se à experiência, ao conhecimento e à prática que vemos no romance,
cuja principal característica, o realismo, traz a fidelidade à experiência
individual como critério fundamental, nomeando os personagens com nomes e
sobrenomes particulares, similares aos da vida real e fugiam de nomes genéricos,
proporcionando um tom mais pessoal à história, cativando o público e marcando o
romance como um gênero que, mais que qualquer outro, primou pela originalidade
e a novidade. Como os grandes destaques de características realistas, podemos destacar
autores como Gustave Flaubert em sua obra “Madame Bovary” que gerou polêmica e
sofreu perseguição, sendo inclusive processado; James Joyce que posteriormente
passou pelo mesmo périplo jurídico com sua obra máxima “Ulisses” ao, inclusive,
fazer um contraponto ao herói épico homônimo quando torna a sua volta para casa
em uma viagem tão arriscada quanto a dele; destaca-se Balzac com seu conjunto
de obras aclamado e conhecido como a “Comédia Humana”; o escritor inglês,
Charles Dickens, um dos grandes expoentes do gênero, com sua obra quase
autobiográfica, “David Copperfield”, entre muitos outros.
Moderno, pessoal, focado em experiências individuais e realistas, transformou a narração tradicional (oral e coletiva) em individual, livre de padrões limitantes como nos outros gêneros literários antecessores, o gênero romance tornou a literatura um produto mercadológico e acessível a qualquer tipo de leitor por meio de seu principal veículo, o livro. Hoje vemos vários subgêneros como o romance de ficção científica, bem popular principalmente entre o público jovem; o romance policial, o romance com histórias de amor, o romance adolescente; o romance de época, enfim, tem romance para todos os gostos com muitos livros sendo produzidos desde edições de bolso, mais baratas, até luxuosas edições para obras famosas, coleções, tudo isso em plena era digital onde tudo praticamente migrou para a internet e a redução da demanda de impressos é cada vez mais crescente. Como notamos, o romance é um gênero altamente mutável e adaptável, em termos darwinianos, ele vem sobrevivendo à seleção natural no reino literário desde seus primórdios até os dias atuais, permanecendo no topo da cadeia literária como gênero reinante e até agora não houve concorrente, nem sequer de longe. Agora devemos pensar como será o romance na era digital - já vemos os audiobooks (livros narrados em arquivos digitais de áudio) se expandindo e o Kindle, o livro digital da Amazon - como ele vai continuar se adaptando ao novo meio e continuar conquistando leitores em tempos onde a informação em tempo real e a distração proporcionada por aplicativos de celular, fúteis e vazios de conteúdo, vêm se tornando seu principal concorrente.
Parafraseando a célebre canção de Raul Seixas, o romance
é uma “Metamorfose Ambulante”.
Referências bibliográficas:
BAKHTIN, Mikhail. Epos e romance: sobre a metodologia do estudo do romance. In: ___. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. Tradução de Aurora Bernardini. 4ª ed. São Paulo: UNESP-HUCITEC, 1998.
BENJAMIN, Walter. O Narrador. In: _____ Magia e Técnica, Arte e Política - ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras escolhidas, volume I, 2ª edição, São Paulo: Editora Brasiliense, 1994.
WATT,
I. O Público Leitor E O Surgimento Do Romance. In: _____ A ascensão do romance:
Estudos sobre Defoe, Richardson e Fielding. Trad. Hildegard Feist. São Paulo:
Companhia das Letras, 2010.
WATT, Ian. A ascensão do romance: estudos sobre Defoe, Richardson e Fielding. Trad. de Hildegard Feist. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
- FIM -






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