Resenha nº 4: HISTÓRIA DA LOUCURA, por Michel Foucault
Você que me lê, o que entende por LOUCURA? Podemos dizer que se trata de um lapso momentâneo da razão, um devaneio, ou mesmo estado de alteração mental cuja causa pode ser um trauma, uma ação causada por alguém, uma perda, momentânea ou permanente, que nos leva a cometer atos de insanidade, atos injustificáveis que em condições normais, jamais faríamos.
Não sei se já estou pronto para ler MICHEL FOUCAULT, pois é uma leitura densa e complexa, no entanto, precisamos forçar nossos níveis interpretativos sempre a patamares mais elevados, ou nos limitaremos. A Literatura, a Música e o Cinema sempre foram o meu tripé no rol dos temas que mais me interessam, mas entre eles permeia outro: a LOUCURA, mas quando esbarrei com essa obra em um sebo, não resisti, peguei-o e não me arrependo. Já tinha essa obra em formato e-book, mas continuo não me adaptando, somente ao velho papel, ainda mais envelhecido e vitaminado pelos ácaros, dando tons mais acentuados ao odor de envelhecido.
Na obra HISTÓRIA DA LOUCURA, Foucault vai reavaliar o tema da loucura desde o fim dos leprosários, na transição da Idade Média e a Renascença para o início da Idade Moderna, e a passagem desta para o período Contemporâneo, com o controle da Lepra, passando para o novo flagelo, as doenças sexualmente transmissíveis, à criação dos hospitais psiquiátricos para tratar dos mentalmente incapazes, ou simplesmente loucos.
Foucault, no primeiro capítulo, aborda a LOUCURA como lado oposto da mesma moeda que figura a RAZÃO. Os loucos são pessoas que dizem a verdade em uma linguagem isenta de estética, de modo direto, são descritos como portadores da verdade e sabedoria e não como uma patologia, no primeiro instante, remetendo o leitor à obra Stultifera navis (Nau dos Loucos), do holandês Hieronymus Bosch, hoje exposta no Musée du Louvre, Paris. Como na obra, os loucos eram destinados aos marinheiros que os levavam a navios para que não ficassem vagando pelo território pondo em risco a sua vida e a dos outros, era considerado de início, um problema urbano, como se fosse uma praga, que futuramente foi entendida como uma enfermidade.
O filósofo faz uma análise histórica do tema LOUCURA passando pelas internações, pelo mundo correcional, pelas experiências de loucuras, abordando conceitos de demência, mania, melancolia, histeria e hipocondria, sobre médicos e loucos e no primeiro capítulo destaca exemplos de loucura na literatura
do fim do século XVI e no começo do XVII, uma arte que, em seu
esforço por dominar esta razão que se procura, reconhece a presença da loucura, citando Lady McBeth e Rei Lear, de Shakespeare, Dom Quixote, de Cervantes, destacando três tipos de loucura:
1) Loucura da vã presunção: não é com um modelo literário que o louco se identifica; é com ele mesmo, e através de uma adesão imaginária que lhe permite atribuir a si mesmo todas as qualidades, todas as virtudes ou poderes de que carece;
2) Loucura do justo castigo: ela pune através das desordens do espírito, as desordens do coração, mas tem outros poderes: o castigo que ela inflige multiplica-se por si só na medida em que, punindo, ele mostra a verdade. A justiça desta loucura consiste no fato de que ela é verídica. Verídica, pois o culpado já experimenta, no turbilhão inútil de seus fantasmas, aquilo que será para todo o sempre a dor de seu castigo;
3) Loucura da paixão desesperada: o amor decepcionado em seu excesso, sobretudo o amor enganado pela fatalidade da morte, não tem outra saída a não ser a demência. Enquanto tinha um objeto, o amor louco era mais amor que loucura; abandonado a si mesmo, persegue a si próprio no vazio do delírio.
"Na obra de Shakespeare, são as loucuras que se aparentam com a morte e o assassinato. Na de Cervantes, as formas que se entregam à presunção e a todas as complacências do imaginário", diz o autor, complementando, "Em Cervantes ou Shakespeare, a loucura sempre ocupa um lugar extremo no sentido de que ela não tem recurso. Nada a traz de volta à verdade ou à razão. Ela opera apenas sobre o dilaceramento e, daí, sobre a morte. A loucura, em seus inúteis propósitos, não é vaidade; o vazio que a preenche é "um mal bem além de minha prática", como diz o médico a respeito de Lady Macbeth. Já se tem aí a plenitude da morte: uma loucura que não precisa de médico mas apenas da misericórdia divina".
Foucault utilizou o método arqueológico nesta obra, e segundo Bruno Carrasco - terapeuta, professor e pesquisador, graduado em Psicologia, licenciado em Filosofia e Pedagogia -,"A análise arqueológica entende que há condições históricas que possibilitaram a constituição de saberes e verdades, convenções e normativas. Assim, Foucault não faz história apenas para descrever as práticas passadas, mas para destacar as implicações destas na atualidade, analisando os acontecimentos, não apenas das totalidades abrangentes, mas as singularidades, os discursos e o modo como estes produziram determinados saberes".
Ainda segundo Bruno Carrasco, "Em suas pesquisas, menciona três momentos da loucura: a "Indiferenciação (séculos XV e XVI)", onde não havia distinção entre loucura e saber, o louco era um estranho que peregrinava livremente; a "Segregação (séculos XVII e XVIII)", onde a loucura passa a ser excluída da razão e enclausurada, apesar de não muito bem percebida; e a "Medicalização (séculos XIX e XX)", quando a loucura começa a ser entendida como “doença mental”, se tornando objeto médico e de tratamento."
Ainda estou no início da obra e já estou gostando muito de aprofundar os conhecimentos sobre a LOUCURA, um tem sempre em voga e com dimensões artísticas e realistas no cinema, nas séries televisivas e claro, na Literatura mundial. A quem se interessa, é um prato cheio.
Pegue seu lugar na Nau dos Loucos e entre à fundo no tema.
Fonte: https://www.ex-isto.com/.../historia-da-loucura-foucault...

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